Era a madrugada de 3 de abril de 2018 que nunca mais irei esquecer.

Estava eu no apartamento no 9 andar, quase vazio e com um colchão no chão, deitado, olhava para o teto no escuro da sala, apenas com a luz, já fraquinha que vinha de fora e entrava pela sacada.

Eu estava tentando não pensar - Para que o desespero não tomasse conta.

Em dois dias tinha vendido quase tudo que ali estava. Naquele domingo de Páscoa dia 1, não houve ressurreição para mim. Era o meu calvário que ali sentia. A maior dor que consigo relembrar de toda minha vida. Depois de 11 anos casado e com duas filhas- elas ali não estavam mais.

Via não só o apartamento vazio, sentia minha alma sendo despedaçada, via a sombra da escuridão e ouvia os gritos de desespero que nunca tinha ouvido- e eles vinham de mim.

Por que, por que?? Gritava e chorava.

Saber que você irá voltar pra casa e não mais encontrar sua família dói , e dói pra caramba. Saber que não vai dar um beijo de boa noite nas suas filhas e não vai acordar com aqueles abraços quentinhos é de cortar qualquer coração. Mas o que dói mais é saber que não fizemos tudo que podíamos para evitar isso.

Por outro lado, eu sou a favor das pessoas em um relacionamento e não na instituição do relacionamento (casamento). Crianças sobrevivem à separações até melhor do que ficarem dia e noite, vivenciando a toxicidade de relações complicadas ou abusivas. Presença está muito mais na qualidade do que na quantidade.

Obviamente, todos sofrem. O pai, que geralmente não fica com a guarda dos filhos, terá enormes dificuldades de adaptação, em especial, quando as crianças estão geograficamente distantes. Foi o meu caso.

Mas quando há amor? O que fazer? Será que só amor basta?

Primeiro é saber se o amor não é apego. E para isso, nada melhor do que a distância e tempo. O apego é quando você não está para amar sem querer nada em troca, justamente quando você está ali apenas para suprir alguma necessidade sua.

Nosso relacionamento chegou em um estágio de saturação e acúmulo de muitas dores que viraram sofrimento.

Era doloroso demais vê-la sofrer. Eu me sentia impotente. Sabia que não conseguiria mais atender as expectativas e ser um bom marido e pai. Era minha crença.

15 dias antes, tinha perdido meu irmão mais novo para o suicídio. 2 meses antes, tinha saído da casa de 5 quartos e ido morar em um apartamento pequeno. 1 mês antes, meu carro tinha sido roubado.

Eu não queria dar o braço a torcer de que tinha perdido tudo. Mas nessa madrugada, eu estava na mais profunda escuridão do meu ser.

Deus? Onde estava Deus? Era como eu repetisse as palavras de Jesus - “Pai, pai, por que me abandonastes?”

Eu estava ali... não consigo deixar de me emocionar ao escrever isso pela primeira vez aqui...Uuufff

Você pode estar pensando que tive vontade de tirar minha vida...mas não.

Nem me passou pela cabeça mas sei exatamente porquê. Mas entenda que as duas únicas coisas que me mantiveram vivo foram pensar que minhas filhas e Luíza precisavam de mim e que eu tinha uma missão a cumprir. Independente desses fatos, eu estava determinado a continuar em meu novo caminho de autodescoberta.

Lembrando que meu primeiro evento de transformação pessoal foi em dezembro de 2017 e se eu não tivesse constatado minha missão ali, aí talvez, eu não estivesse aqui para contar essa história. Meu propósito me salvou!

Eu não mais tinha uma empresa e nem mesmo algo fixo.

Cada mês era uma batalha para sustentar a família morando em outra cidade e eu na capital.

Era matar um leão por dia ou ele me mataria.

Os feedbacks positivos de pessoas , clientes e alunos continuavam chegando sem parar e isso me dava gás.

Mas a saudade delas doía. Eu só conseguia ver minhas filhas duas vezes por mês, por causa da distância e gastos.

Eu durante meses, todas as noites , chorava de tristeza mas sempre enviando todo meu amor.

Eu tentava ressignificar essas dores mas algo me dizia que não era o fim.

Confesso que me iludi de certa forma com alguns aspectos da solteirice mas era só ilusão e era incapaz de me envolver emocionalmente.

Investi em amizades mas ninguém conseguia me ajudar, pois não sabiam o que era ter uma família.

Mas o dia veio. Depois de dois meses sem ver minhas filhas e logo depois de mais uma turma do meu evento DSV (Descubra Sua Voz) eu fui a cidade onde elas estavam morando.

Eu fui com 2 intenções definidas:

- Saber que eu poderia continuar minha vida e definitivamente se contentar em ser o pai a distância.

- Ou ver uma ex esposa em seu processo de autodescoberta e autenticidade e ativar a esperança de uma nova tentativa.

Eu não tinha nenhuma visão romântica daquilo. Era amor incondicional, independente do resultado.

E foi lá, que no dia 30 de novembro de 2018, que decidimos focar em um novo recomeço.

A imaturidade, egoísmo e personalidades diferentes nos deixaram cegos por várias vezes.

Foram tantos altos e baixos que quando estávamos por cima, já sabíamos que algo muito ruim poderia acontecer. E acontecia.

Enfrentamos a ansiedade, a depressão, a falta de dinheiro, e por mais que houvesse amor, esse ainda era imaturo e não havia uma vida espiritual capaz de trazer equilíbrio.

Hoje, só sei que, independente de qualquer coisa, o poder do despertar espiritual é capaz de trazer equilíbrio, desde que os dois estejam nesse processo.

Eu não me arrependo de nada e tudo que aconteceu enquanto estávamos longe, fez parte do processo.

Não sei nada sobre o futuro e ainda temos muita estrada para percorrer e terreno para cobrir mas agora não temos mais aquele ego tão inflado que não nos permitia diálogo.Há cuidado e reconhecimento de que cada um é responsável pelas suas sombras. Não sou perfeito e estamos sujeitos às falhas, as doenças do corpo e da alma. Mas temos hoje, o antídoto capaz de gerar cura - Autenticidade e Fé em Deus.

Hoje aprecio intensamente cada abraço quentinho das minhas mocinhas, que a cada dia me enchem de amor.

Hoje, me sinto mais autêntico porque não preciso provar nada pra ninguém.

Não me sinto pressionado a tentar passar uma falsa imagem de que está tudo maravilhoso quando não está.

Continuo corrigindo e acertando o passado vivendo cada segundo de hoje de forma PRESENTE e com o olhar no futuro que será impossível alguém não reparar.

Mas, eu sempre me pergunto porque a vida é tão dura comigo. Foram anos confrontando meus sentimentos de inaptidão e preocupação em não expressar tais sentimentos.

Você já se sentiu inadequado? Ou seja, pensar que a vida é uma jornada sem sentido e que as pessoas a sua volta só precisam de você para atender seus interesses próprios?

Vivemos em um mundo onde somos pressionados para sermos quem verdadeiramente não somos. Um desafio e tanto buscar autenticidade quando podemos simplesmente, mascará-la.

Sabe aqueles momentos na infância que você quer ser espontâneo e precisa disso para crescer, e de repente se vê pressionado por outras pessoas para se comportar como um adulto educado e reprimir essa necessidade de “aparecer”?

É sobre isso que quero falar neste livro, sobre o caminho da autenticidade e como esta virtude é um conjunto de outras qualidades e vivências que nós seres humanos buscamos, seja de forma inconsciente ou consciente. Quanto mais inconsciente for essa busca, mais sofrimento vamos acabar tendo.

Este livro é fruto de 40 anos buscando ser autêntico sem perceber, e 2 anos em uma estrada na busca de respostas sobre como transcender o sofrimento pela conexão com um Eu verdadeiro de forma ativa e direta.

Se valeu a pena? Claro que valeu e continua valendo. A cada dia.

Wilson C Monteiro

Trecho do Livro Apenas Seja - O Caminho da Autenticidade para uma Vida Real. Lançamento no primeiro semestre de 2020.